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segunda-feira, 25 de junho de 2012

Será que esse crime não é hediondo?


          A comissão de juristas do Senado que discute mudanças ao Código Penal decidiu no último dia 11 de junho, não incluir a corrupção praticada contra a administração pública na lista de crimes considerados hediondos. A sugestão havia sido feita pelo relator, o procurador regional da República Luiz Carlos Gonçalves, mas não foi acolhida pela maioria dos integrantes da comissão.
         O colegiado, contudo, aprovou o acréscimo de sete delitos ao atual rol de crimes hediondos: redução análoga à escravidão, tortura, terrorismo, financiamento ao tráfico de drogas, tráfico de pessoas, crimes contra a humanidade e racismo.
Atualmente, são considerados hediondos os crimes de homicídio qualificado, latrocínio, tortura, terrorismo, extorsão qualificada pela morte, extorsão mediante sequestro, estupro e estupro de vulnerável, epidemia com resultado de morte, falsificação de medicamentos e tráfico de drogas.
          A Lei dos Crimes Hediondos foi editada em 1990, no governo do ex-presidente Fernando Collor de Mello, como resposta a uma onda de violência em resposta à violência no estado do Rio de Janeiro. Na prática, os juristas propuseram incorporar ao Código Penal as mudanças da lei.
         Os crimes hediondos são considerados inafiançáveis e não suscetíveis de serem perdoados pela Justiça. Eles têm regimes de cumprimento de pena mais rigoroso que os demais crimes, como um tempo maior para os condenados terem direito a passarem do regime fechado para o semiaberto, por exemplo. Atualmente é de dois quintos da pena para não reincidente e, com a proposta aprovada, seria de metade - para os reincidentes, o prazo seria o mesmo, de três quintos. A prisão temporária é de 30 dias, prorrogáveis por igual período, prazo maior do que nos demais crimes.
         Durante os debates da comissão, o relator chegou a sugerir que a sociedade "clama" por essa mudança. Mas, numa votação rápida, apenas o desembargador José Muiñoz Piñeiro Filho e o promotor de Justiça Marcelo André de Azevedo votaram a favor.
         "Na minha visão, a corrupção deveria fazer parte desse rol, mas a maioria entendeu que não", afirmou Luiz Carlos Gonçalves, lembrando que "em um colegiado não é correto falar em derrotas ou vitórias". "Um Código Penal deve atender à sociedade e posso afirmar que uma das sugestões que a sociedade mais reivindica é que os crimes contra a administração pública, notadamente o peculato (desvio de dinheiro público) e a corrupção, deveriam fazer parte do rol", disse Piñeiro Filho.
         "Nós entendemos que a Lei de Crimes Hediondos ao longo dos seus anos de vigência não contribuiu para reduzir a criminalidade em nenhuma medida e trouxe problemas para o sistema prisional e penitenciário", disse o advogado Marcelo Leonardo, que foi contrário a todas as inclusões.
O colegiado tem até o final do mês de junho para apresentar uma proposta de reforma do Código Penal ao presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). Caberá à Casa decidir se transforma as sugestões dos juristas em um único projeto ou as incorpora em propostas que já tramitam no Congresso.


Fonte: Agência Estado (11/06/2012)


Mas afinal, "hediondo", o que é isso?


Ao contrário do que costuma se pensar no senso comum, juridicamente, crime hediondo não é o crime praticado com extrema violência e com requintes de crueldade e sem nenhum senso de compaixão ou misericórdia por parte de seus autores, mas sim um dos crimes expressamente previstos na Lei nº 8.072/90. Portanto, são crimes que o legislador entendeu merecerem maior reprovação por parte do Estado.

Os crimes hediondos, do ponto de vista da criminologia sociológica, são os crimes que estão no topo da pirâmide de desvaloração axiológica criminal, devendo, portanto, ser entendidos como crimes mais graves, mais revoltantes, que causam maior aversão à coletividade. Segundo Fátima Aparecida de Souza Borges:

Crime hediondo diz respeito ao delito cuja lesividade é acentuadamente expressiva, ou seja, crime de extremo potencial ofensivo, ao qual denominamos crime “de gravidade acentuada”. 1

Do ponto de vista semântico, o termo hediondo significa ato profundamente repugnante, imundo, horrendo, sórdido, ou seja, uma ato indiscutivelmente nojento, segundo os padrões da moral vigente. O crime hediondo é o crime que causa profunda e consensual repugnância por ofender, de forma acentuadamente grave, valores morais de indiscutível legitimidade, como o sentimento comum de piedade, de fraternidade, de solidariedade e de respeito à dignidade da pessoa humana. Ontologicamente, o conceito de crime hediondo repousa na idéia de que existem condutas que se revelam como a antítese extrema dos padrões éticos de comportamento social, de que seus autores são portadores de extremo grau de perversidade, de perniciosa ou de periculosidade e que, por isso, merecem sempre o grau máximo de reprovação ética por parte do grupo social e, em conseqüência, do próprio sistema de controle.

São considerados crimes hediondos:

- homicídio quando praticado em atividade típica de extermínio, ainda que cometido por um só agente, e homicídio qualificado (art. 121, parágrafo 2º, incisos I,II, III,IV e V).

- latrocínio

- extorsão qualificada pela morte

- extorsão mediante sequestro e na forma qualificada

- estupro

- atentado violento ao pudor

- epidemia com resultado morte

- falsificação, corrupção, adulteração ou alteração de produto destinado a fins terapeuticos ou medicinais crime de genocídio previsto nos artigos 1º, 2º e 3º da lei 2889/56.

São crimes equiparados a hediondos:

- tráfico ilícito de entorpecentes

- tortura

- terrorismo



Fonte: Yahoo! Respostas (por Jessica Silva L.)






          A corrupção não será um ato profundamente nojento e repugnante? Como já dizia a letra de um samba gravado por Bezerra da Silva: "Será que esse crime não é hediondo?

         Faço votos que as próximas mudanças em nosso código penal sejam, efetivamente, pra melhor.


              Cesar S. Farias


 







domingo, 17 de junho de 2012

O homem da ganja



           Afora aquele inconfundível cheiro que exalava pela janela quatro ou cinco vezes por semana, não havia nenhum outro motivo para reclamações na vizinhança. Dona Íria e Seu Jacinto que o digam. Moravam ao lado da cabana de madeira envernizada que  pertencia ao inofensivo maconheiro, novo morador daquela pacata Rua das Bromélias. O casal de anciãos era freqüentemente acudido pelo rapaz, que possuía avançados conhecimentos de eletricidade e conserto de eletrodomésticos em geral. Foi ele quem recuperou, sem cobrar qualquer tostão, a batedeira, o aparelho de som e o ferro de passar roupas dela. Em pouco tempo, tornou-se Cauã o mais confiável quebra-galhos da rua. Quando o assunto era rede elétrica, quase todos, exceto a família do Humberto, requisitavam-no em suas horas de folga. A todos acolhia com um semblante sempre tranqüilo e agradável que conquistava crianças, adultos e idosos. Trabalhava de sol a sol, de segunda a sábado, na Instalsul Engenharia Ltda., firma solidamente estabelecida no centro da cidade. Mesmo assim, atendia a vizinhança sem demonstrar cansaço ou contrariedade, pelo simples prazer de ajudar.
            Dona Íria, que adorava conversar sobre plantas, chás e ervas medicinais, encontrou nele um perfeito parceiro para a troca de receitas e novas fórmulas contra as mazelas do corpo. Aprendeu a usar o capim cidrão para elevar a sua pressão e a espinheira santa para combater a úlcera do Seu Jacinto. Também, graças ás dicas do moço, conseguiu finalmente curar a cistite da neta apenas com o chá de cavalinha e pata-de-vaca. Ela e o marido admiravam-no, mas andavam um tanto confusos pelos comentários surgidos em torno dele.
           Apesar de viver honestamente, com o suor do próprio trabalho, respeitando cada morador vizinho sem distinção, Cauã e a sua cabana nº 12 da Rua das Bromélias andavam na mira da lei. O tal cheiro que incomodava, cheiro de erva queimada, atiçava, dia após dia, a inimizade de Humberto, proprietário de uma granja situada na descida da rua. O eletricista era um sujeito caseiro, que muito raramente recebia visitas, contudo, boatos começaram a associá-lo ao tráfico de drogas. Não tardou ele a perceber que a vizinhança começava a tratá-lo com certa frieza e que alguns pais já não deixavam os seus filhos pequenos demorarem-se para ouvi-lo em frente á cabana. Isso naturalmente incomodou-lhe um pouco, mas não o suficiente para fazê-lo mudar a postura com todos eles, pois era incapaz de guardar ressentimentos. Mudara a menos de um ano para o bairro, tendo em si a mesma determinação de um João-de-barro quando constrói o novo ninho. Fez questão de pregar, do assoalho ao telhado, cada tábua de sua casa. O trabalho lhe consumiu os domingos de folga durante dois meses inteiros. Nesse período, enquanto pacientemente erguia as paredes do “lar doce lar”, começou a cativar os vizinhos com o seu jeito simples, calmo e atencioso. Comprara aquele terreno com recursos que vinha ajuntando na caderneta de poupança à cerca de quatro anos.
            Inicialmente, logo que se transferiu para o novo núcleo residencial, o odor da cannabis sativa foi atenuado pelo forte cheiro do verniz que ele ia aplicando à madeira. Com o tempo, porém, os olfatos mais apurados não tiveram muitas dificuldades para notarem que ele fumava maconha. Foi Dona Íria, a sua amiga de ar maternal, quem procurou abordar de frente o assunto durante uma conversa sobre a infusão das benditas ervas que curam. A explicação dada por ele tranqüilizou-a um pouco, pois afastou a hipótese do tráfico de drogas.
             A sua relação com a ganja(*) tinha um caráter totalmente místico. Fumava para refletir melhor sobre problemas e esquecer experiências negativas, obtendo paz de espírito e coragem. A erva era para ele um canal de acesso ao Pai, deixando-o na freqüência certa para entoar os seus cânticos devocionais e preces ao mundo extrafísico. Além disso, auxiliava-o a exercitar o seu lado músico, que nunca, em nenhuma fase da sua vida, deixara de lado. Tinha um violão Giannini vermelho e nesses momentos de inspiração conseguia compor e aperfeiçoar as canções que escrevia. A ganja que consumia, comprava-a diretamente no sítio de um plantador anônimo na região metropolitana de Porto Alegre.
            Nem todos tiveram a disposição e boa vontade de Dona Íria para ouvi-lo em suas justificativas. O tal Humberto da granja encabeçava a lista dos que desejavam vê-lo bem longe dali. O homem de 44 anos, criador de galinhas, tinha como principal fonte de renda a comercialização de ovos. Tinha também uma micro criação de suínos. Ano após ano ele comprava cinco ou seis porcos, alimentava-os bem e em dezembro, um pouco antes dos festejos natalinos, sangrava-os até a morte, vendendo-os em pedaços para a vizinhança. Do pai, já falecido, herdou a granja e a paixão pelo samba. Samba que não era feito com pandeiro, surdo, cavaco e violão, mas com cachaça e coca-cola, servidas em botecos da periferia. Bebia diariamente e sob o amparo da lei, dois ou três copos do “elixir” que o ajudava a esquecer mágoas, ganhar ânimo e tomar decisões. Costumava dirigir  o seu  velho  Passat   cinza  em   alta  velocidade quando se embriagava e ficava violento quando era contestado. Em março de 2005, durante a festa de aniversario da prima, num acesso de fúria, deu um tiro em seu cunhado, que, segundos antes, chamara o Grêmio Foot Ball Porto Alegrense de “timinho mixuruca”. Contratou logo em seguida um bom advogado e alegou, com sucesso, ter agido apenas em legítima defesa.
            Numa noite qualquer, ao voltar do boteco, Humberto sentiu o odor proibido exalando da cabana e tomou finalmente a decisão que há algum tempo vinha arquitetando. Estacionou o veículo a dois quarteirões do local, em frente a um orelhão, desceu um pouco cambaleante e daquele aparelho telefônico acionou uma patrulha policial. Vinte minutos após, quando a nuvem de fumaça já havia se desvanecido no ar, uma viatura da Brigada deslocou-se ao endereço apontado para proceder às averiguações. Da cabana escutavam-se apenas os precisos acordes do violão de Cauã, e o único cheiro que exalava desprendia-se da graciosa árvore pitangueira plantada por Dona Íria em sua calçada.       Uma brisa fresca encarregava-se de espalhar pela rua o perfume daquele fruto tropical, proclamando aos moradores da Terra o pleno domínio da primavera.
            O criador de galinhas, após a frustração, ficou ainda mais obstinado em meter aquele usuário criminoso na cadeia. Gastou aquela madrugada inteira refletindo sobre a melhor maneira de entregar em flagrante delito o eletricista. Quando os primeiros raios de sol romperam as espessas folhagens da cerca verde que circundava a sua granja, Humberto saltou da cama com ar de triunfo. Seus olhos estavam ainda vermelhos e o hálito simplesmente insuportável. Entrou no Passat, que estacionara ao relento no pátio, e tomou o rumo do bairro Floresta, onde morava o seu tio, um policial civil aposentado. Não existia grande amizade ou simpatia entre ambos e havia quase dez anos que não se procuravam. Contudo, a ocasião oportuna lhe fez tomar a iniciativa. Teve o cuidado de comprar antes uma caixa de uísque importado, Ballantines, para amenizar a frieza do reencontro. O velho apreciava as delícias de um bom malte, pois com ele descontraía, ficava ousado com as mulheres e sentia-se jovem. A conversa durou o tempo suficiente para o granjeiro receber das mãos do tio um cartão de recomendações indicando-lhe a certa delegacia que se encarregaria de investigar a denúncia. Sem perder tempo, deslocou-se até o distrito policial indicado e acertou todos os detalhes necessários para a prisão do seu vizinho. Eufórico, tão logo saiu de lá, Humberto começou a desabafar pelos botecos da redondeza que a sua vitória estava próxima.
            Durante um mês e meio, agentes civis infiltrados nos arredores monitoraram as noites de Cauã e descobriram a melhor hora para agir. A abordagem certeira foi planejada e no dia e hora marcados o rapaz foi revistado quando chegava em casa com um pequeno embrulho enrolado em papel alumínio. Levou dois tapas na cara e sem reagir conservou-se encostado no muro com as mãos e pés afastados. Dois transeuntes passaram rapidamente naquele instante e sem encará-lo apenas comentaram entre si:

-- Finalmente pegaram ele...
-- É, já tava na hora.

            Para surpresa dos inspetores, no entanto, o embrulho continha Boldo do Chile, uma erva com características diferentes da procurada. Havia junto uma folha de papel manuscrito contendo uma breve instrução medicinal:
     


A/c de Humberto, domiciliado à Rua das Bromélias nº 34:

                  Remédio natural contra a ressaca

    Coma iogurte natural antes de se deitar. Quando acordar tome 1 colher de mel. Fazer uma infusão de boldo e beber pela manhã. Antes de beber tome 1 colher de sopa de óleo de oliva.


            Dona Íria, que assistira toda a operação pela fresta da janela, assim que a viatura se foi, surgiu rapidamente no vidro e ambos, ela e o eletricista deram uma cúmplice piscada de olhos.

 (*) Também conhecida como marijüana e cannabis, é uma erva medicinal milenar usada pelos adeptos da filosofia rastafári, não para diversão ou prazer, mas sim para  limpeza  e  purificação  em  rituais controlados. Muitos sustentam o seu uso através de Gênesis 1:29: “E disse Deus: Eis que vos tenho dado todas as ervas que dão semente e se acham na superfície de toda a terra e todas as árvores em que há fruto que dê semente. Isso vos será para mantimento”.





                                     Cesar S. Farias


segunda-feira, 11 de junho de 2012

Literatura que incomoda



'Selva Trágica' foi lançado originalmente em 1960. É um romance épico, que, incompreensivelmente, estava esquecido.

Se o Brasil já soube reverenciar os seus grandes escritores, como ao tempo de José de Alen­car (1829-1877), Machado de Assis (1839-1908), Olavo Bilac (1865-1918), Graciliano Ramos (1892-1953) e Jorge Amado (1912-2001), hoje não o faz tanto. E não é porque não existam grandes escritores. É por desconhecimento mesmo das novas e velhas gerações que são bombardeadas por literatura norte-americana de baixo nível, que aqui chega em formato de livros de autoajuda.

Quem é professor de Língua Portuguesa na graduação conhece bem o drama: se pedir para que seus alunos escrevam resenha crítica de algum livro que já tenham lido nos últimos anos, será contemplado com apreciações sobre os chamados best sellers de autores norte-americanos. E mais: na maioria, são resenhas que tiram da internet e que assumem como suas, praticando apropriação indébita. Mas o que esperar de um país que há muito tempo não prepara seus professores do ensino fundamental e médio, mas pretende 'inundar' as escolas públicas de lousas digitais, provavelmente porque algum figurão há de ganhar gordas comissões nas vendas para prefeituras e órgãos públicos?

Mas nem tudo está perdido. Ainda bem que, de vez em quando, aparece um editor de visão e bons propósitos, como Nicodemos Sena, que, aliás, é também um fino escritor. Di­retor da Associação Cultural Letra Selvagem, de Taubaté-SP, Sena vem relançando vários livros que já deveriam ter sido canonizados na história da literatura brasileira. Mas que, sabe-se lá por que, não o foram.

É o caso de 'Selva Trágica', de Hernâni Donato, que, lançado em 1960, causou grande impacto no leitor a ponto de esgotar quatro edições. E não só. Em 1963, em função do sucesso de crítica e de público, foi transformado em filme em preto e branco pelo diretor Roberto Farias, marcando a estreia de Reginaldo Farias, que viria a se tornar um dos principais atores do cinema brasileiro. O filme ganhou o Prêmio Saci, promovido pelo jornal 'O Estado de S. Paulo', e representou o Brasil no Festival de Veneza. Hoje, é considerado um 'clássico' do Cinema Novo brasileiro e não pode faltar no acervo de uma cinemateca.

Hernâni Donato, 90 anos, nasceu em Botucatu, interior de São Paulo, em uma família de imigrantes italianos. Filho de um operário, mesmo com dificuldades tornou-se um intelectual de sólidos conhecimentos e, profissionalmente, desempenhou a atividade de publicitário. Membro da Academia Paulista de Letras, é autor de mais de 70 livros nos mais variados gêneros, indo da literatura infanto-juvenil à biografia, da historiografia aos costumes, da pesquisa à divulgação científica. Traduziu 'A Divina Comédia', de Dante Alighieri. Como romancista, publicou ainda 'Chão Bruto', 'Rio do Tem­po', 'O Caçador de Es­me­raldas' e 'Filhos do Des­tino', que obtiveram êxito editorial nas décadas de 1950 e 1960.
Ernâni Donato

De que trata 'Selva Trágica'? É um romance-documento como poucos na história da literatura brasileira. À maneira de Gustave Flaubert (1821-1880) e Émile Zola (1840-1902), o jovem Donato empreendeu uma minuciosa pesquisa, não só em fontes impressas como in loco, visitando a região em que situou o seu romance e entrevistando pessoas que serviriam para compor seus personagens. Ouviu casos terríveis contados por antigos trabalhadores das 'minas' de erva-mate no Mato Grosso, que só não surpreendem porque no Brasil de hoje os jornais, de vez em quando, ainda trazem notícias de que as autoridades federais flagraram trabalho escravo em fazendas.

É do que trata, em poucas palavras, o livro de Donato. Até 1938, período do primeiro governo de Getúlio Vargas, o nosso clone de Hitler e Mus­solini, manteve-se o monopólio da Companhia Mate Laranjeira, empresa argentina que explorava a extração do mate nos ervais do Mato Grosso. O trabalho era desumanamente desenvolvido em condições que fariam o inferno, de Dante Alighieri (1265-1321), parecer um oásis.

Ao final da década de 1950, quando Donato embrenhou-se nos ervais em busca de material para o seu romance, ainda havia cerca de cinco mil homens e mulheres que trabalhavam em condições subumanas, sem descanso, durante 14 horas por dia, na colheita e transporte da erva. Ainda assim, há historiadores que afirmam que o período Vargas (1930-1945) foi aquele em que pela primeira vez os trabalhadores tiveram seus direitos reconhecidos e respeitados. Talvez isso se tenha dado em grandes cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro, porque no interior o Brasil sempre foi um imenso campo de concentração, que nada ficaria a dever a Auschwitz-Birkenau ou ao Gulag soviético, ainda que em tempos de paz.

Entre as muitas histórias que Donato recolheu e transportou para a literatura, estão a do homem que teve de lutar de garrucha em punho e viu seu filho morrer, porque ousou escrever sobre o que se passava na cultura do mate; e a do peão que trazia no corpo sinais de 18 facadas, com cortes que haviam sido costurados com agulha e barbante de costurar saco. Mas isso ainda era pouco: diariamente, os homens tinham de transportar o mate entre a 'mina' e o acampamento, pelo meio da selva bruta, em fardos de 150 ou 200 quilos, amarrados às costas. Qualquer passo em falso causava a quebra da espinha dorsal do carregador. A vítima gemia a noite inteira, até que os demais trabalhadores pediam ao administrador que tivesse caridade. Então, os próprios companheiros recorriam ao jogo de cartas para que ao perdedor coubesse a tarefa 'de dar paz ao moço desgraçado', ou seja, dar um tiro na cabeça daquele ser agonizante (pág.36).

Os bebedores de mate — hábito ainda largamente difundido não só no Centro-Oeste e Sul do Brasil, como nos países de fala hispânica — que viviam na cidade, provavelmente, nem imaginavam como a erva-mate seria cultivada. Talvez tenham ficado indignados com os fatos narrados em 'Selva Trágica', o que justificaria a procura que o livro despertou no acanhado ambiente cultural paulista e carioca daquela época.

São narrações pungentes que horrorizam pela brutalidade com que era tratado o 'uru', o homem responsável pelo 'barbaquá', espécie de forno de madeira em que a erva era preparada para o consumo. Esse coitado era obrigado a trabalhar dia e noite sem parar, remexendo as folhas da erva sob um calor infernal. Depois de algum tempo trabalhando sob essas condições atrozes, todos os pelos de seu corpo secavam, caindo.

O trabalhador ficava esturricado e se transformava num feixe de ossos, talvez parecendo um salame defumado, enquanto os diretores da Companhia Mate Laranjeira confraternizavam-se com os donos do poder no palácio do governo em Cuiabá, no Palácio do Catete no Rio de Janeiro, na Casa Rosada em Buenos Aires, e no Palácio de los López em Assunção, garantindo o privilégio do monopólio da extração da erva.
'Selva Trágica foi relançado em novembro de 2011

Por aqui se vê que 'Selva Trá­gica' é um romance épico, que, incompreensivelmente, estava esquecido. E olhem que não foi por falta de reconhecimento da crítica. Temístocles Linhares em 'História Econômica do Mate' (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1960) já o considerara um 'romance másculo, forte, bárbaro, como bárbara era a selva, como bárbaro era o trabalho nos ervais'. Artur Neves, na 'Revista Anhembi' (São Paulo, 1961), já o definira como 'uma história como nunca foi escrita em nossa terra'.




Como observa o professor e crítico literário Fábio Lucas em 'O Caráter Social da Literatura Bra­sileira' (Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 1970), em texto que serve de prefácio para esta edição, 'Selva Trágica' constitui 'um dos mais altos momentos da novelística de conteúdo social no Brasil'. Lembra Fábio Lucas que os ervateiros eram mobilizados na fronteira Brasil-Paraguai e levados por máfias para casas de prostituição, até que, bêbados, assinavam um contrato leonino com a companhia. Ficavam devedores para sempre, ganhando apenas para comer. Aos que tentavam escapar do inferno, restava a perseguição dos capangas da companhia que, quando os capturavam, espancavam-nos até a morte. 'Não pense que gosto de mandar bater. Mas quem segura esse povo no duro do trabalho se não usar dureza?', dizia Curê, o administrador (pág.142).

Os capatazes da companhia eram tão sórdidos que se sentiam no direito de abusar das mulheres dos ervateiros, enquanto estes se embrenhavam no mato. As mulheres serviam também para pagar dívidas, funcionando como moeda de troca entre os homens. Mas, apesar da sordidez da vida que levavam, havia ainda aqueles que encontravam forças para lutar contra a exploração e defendiam a extinção do monopólio da companhia. Entre esses, estavam os changa-y, 'os mais miseráveis dos miseráveis dos trabalhadores da erva', aqueles que tentavam trabalhar sem o patrão-algoz.

Luisão era um desses que escapara do inferno verde e andara por Cuiabá e Rio de Janeiro em conversas e peditórios com os políticos favoráveis à extinção do privilégio da companhia ervateira. Dizia aos companheiros: 'A Companhia faz também essa e faz a grande política em Cuiabá, em São Paulo, no Rio, em Buenos Aires, sei lá onde mais. Assim, cobre os gemidos e os gritos da pobre gente dos ervais. No andar em que vamos, nem no fim do século teremos forças para emparelhar o nosso passo com o passo da Companhia. Lá fora é que é preciso gritar. O Governo é que nos pode ajudar se chega a nos ouvir. Mas o Governo só ouve ribombo, so­luços não' (págs. 136/137).

Não por coincidência publicado em 1956, mesmo ano em que saiu à luz 'Grande Sertão: Veredas', de João Guimarães Rosa (1908-1967), 'Selva Trá­gica' é um passo adiante do romance regionalista da década de 1930, época em que o pobre entrou triunfalmente na literatura brasileira. Ambientado no mundo da fronteira, traz ainda uma complexa linguagem narrativa, um verdadeiro amálgama da língua portuguesa com o linguajar guarani, como observa a professora Nelly Novaes Coelho, da Universidade de São Paulo, na apresentação que escreveu para esta edição.

Nesse sentido, é de acrescentar que 'Selva Trágica' tem muitos pontos de aproximação com o trabalho do romancista, contista e antropólogo peruano José María Arguedas (1911-1969), autor de 'Los Ríos Profundos' (1956), 'Todas las Sangres' (1964) e 'El Zorro de Arriba y el Zorro de Abajo' (1971, póstumo), entre outros, que igualmente fazia um trabalho de campo antes de escrever sobre a realidade do mundo 'quéchua' no Peru. Não por acaso, os livros de ambos são permeados por inevitáveis notas de rodapé que servem para explicar as palavras tiradas do idioma indígena.

Houve ainda quem comparasse Hernâni Donato com Erskine Caldwell (1903-1987) e John Steinbeck (1902-1968), a geração norte-americana da revolta, o Caldwell de 'Chão Trágico' ('Tragic Ground', 1944), um mergulho na vida dos vencidos e desgraçados do Sul dos Estados Unidos, e o Steinbeck de 'As Vinhas da Ira' ('The Grapes of Wra­th', 1937), que conta a história de uma família pobre no Estado de Oklahoma durante a Grande Depressão de 1929, que, obviamente, nada têm a ver com a atual geração de norte-americanos pro­dutores de best sellers que envenenam a nossa pou­co letrada juventude.


Fonte: http://www.revistacapitu.com/- Por Adelto Gonçalves

domingo, 3 de junho de 2012

No elevador

         


            Apresento aqui, mais um conto presente em meu 2º livro, a coletãnea "O Grande Pajé." Pra quem se interessar, aqui vai o link da  última resenha dele, feita pela talentosa escritora de literatura fantástica, Pat Kovacs:


http://alternativosindependentes.blogspot.com.br/2012/05/resenha-o-grande-paje-de-cesar-soares.html






“As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um
homem para um porco e de um porco para um homem  outra  vez;
mas já se tornara impossível  distinguir  quem  era  homem, quem
era porco"

          
          George Orwell, escritor nascido no longínquo ano de 1903, na Índia, encerrou assim o seu consagrado livro “A Revolução dos Bichos”. E foi assim também, equiparando o homem com um bicho repugnante, que Dirce entrou em seu apartamento naquela abafada tarde de verão. Foi direto ao chuveiro, sem se dar ao trabalho de apanhar roupas limpas no quarto. Despiu-se com pressa, recebendo aquele jato de água fria com uma satisfação indescritível. Tendo em mãos um perfumado sabonete líquido de ervas finas, esfregou com grande esforço cada centímetro do seu gracioso corpo. Em pouco tempo, o banheiro foi envolvido pela flagrância suave exalada daquela frenética operação de limpeza. Apenas quando abriu o boxe, satisfeita e refrescada em todo o seu ser, ela finalmente sentiu falta de uma toalha e novas vestimentas. Descalça e pingando pelo piso afora, chegou ao quarto para enxugar-se. Tão logo acabou, quando começava a vestir o sutiã, um pensamento agitou-lhe novamente a mente. Jogou bruscamente no chão a peça íntima e voltou,  a passos apressados, ao chuveiro para um novo banho.
A lembrança daquele homem acompanhava-a agora como um encosto ou caô que teima em ficar. Jamais, em seus 37 anos de vida, topara com um olhar tão lascivo. Literalmente da cabeça aos pés, ele esquadrinhara todos os contornos visíveis e invisíveis que havia nela.
Dirce arrependera-se amargamente de, naquela ocasião, não ter usado a escada para descer os míseros dois andares que separavam o apartamento de Paula, colega de faculdade, do seu. Morava no Apto. 104, bloco B, do Residencial Parque Imperatriz e tinha com a referida moça estreitos laços de amizade, desde os tempos do Ensino Fundamental no Colégio Padre Rambo da Avenida Bento Gonçalves. Haviam ambas, através de um projeto habitacional do DEMHAB (Departamento Municipal de Habitação), adquirido os seus respectivos imóveis naquele condomínio e, como boas vizinhas, visitavam-se quase que diariamente. Naquela tarde quente, por volta das 15h40min, elas tomavam café e assistiam a um DVD quando o celular de Dirce tocou. Era a sua filha de 13 anos, que dividia com ela o apartamento. A menina, bastante ansiosa, pediu com urgência a presença da mãe em casa, pois queria muito fazer um desabafo. Telefonara da casa do pai e prometeu em no máximo meia hora chegar ao condomínio para conversarem.
Dirce ficou intrigada e achou que boa coisa não poderia ser. Seu ex-marido tentara já por duas vezes suspender o pagamento da pensão alimentícia, alegando ter muitas despesas com a nova companheira e os dois enteados. Despediu-se de Paula prometendo voltar em seguida para terminarem de ver o filme, que era bem interessante. Optou por embarcar no elevador, coisa que raramente fazia. Sentiu preguiça e resolveu economizar um pouco o joelho, que andava dolorido pelo excesso de exercícios na academia. Apertou o botão e aguardou vinte segundos, mais ou menos. A campainha anunciando a chegada da cabine móvel finalmente soou e, como de praxe, as portas automaticamente abriram-se para o embarque. Estava vazio e ela, entrando, buscou o botão de n.º 1 para indicar onde desceria. Quase no momento de as portas definitivamente fecharem-se, uma voz masculina , pelo lado esquerdo, gritou:

- Espera! Desce!

Gentilmente, como requer a situação, ela apertou com rapidez o botão AP (Abrir Porta). Entrou então um senhor grisalho, com seus 62... 63... 65 anos no currículo. Tinha dentes alvos como o marfim e, num sorriso um tanto quanto dissimulado, agradeceu com voz desafinadamente aveludada:

- Pô... Se não é tu... Obrigado filha... Tô superatrasado para uma reunião...

Em seguida, com interesse, percorreu o seu olhar de peixe-morto pelos 1 metro e 75 centímetros de Dirce, reparando na sua beleza fresca e primaveril. Tinha ela um jeito todo juvenil de ser, e isto estava impresso na forma como se vestia, andava e sorria. Quando percebeu as “sodômicas” intenções do ancião, ficou embaraçada como uma menina. Nervosa, colocou cinco ou seis vezes uma mecha de seus cabelos ondulados para trás da orelha direita, buscando disfarçar o mal-estar que sentiu. Não lhe dirigiu qualquer palavra nem olhou mais em seu rosto, contudo era-lhe evidente que ele continuava a apreciar as suas curvas bem esculpidas.
Por fim, o recato inicial dela deu espaço a uma indignação profunda, e o seu instinto de autodefesa a fez encará-lo com severidade e sem medos. O que viu, no encontro de olhares, repugnou-a ainda mais. O grisalho, perfumado e bem alinhado em seu traje escuro de sarja, percorria com os seus olhos famintos, um trajeto metódico, com intervalos sincronizados. Seu nariz lembrava um focinho de porco, e a gordura acumulada em seu ventre e pescoço deixava-o ainda mais à imagem e semelhança de um suíno. O tal homem cobiçava-a de cima a baixo, de baixo a cima e depois de cima a baixo novamente. Olhava desde os seus pezinhos mimosos até o agradável feitio do seu rosto moreno claro, de lábios carnudos e olhos grandes. Fazia isso lentamente, com prazer e desfrutando até onde o tempo e a ocasião lhe permitiam. Dirce percebeu ainda um discreto movimento horizontal em sua língua, à medida que passeava a vista impura pelos pés, tornozelos, coxas, quadris, barriga e seios dela. Isso, definitivamente, esgotou-lhe a paciência. E, quando preparava ela uma bofetada certeira, o elevador chegou enfim ao 1.º andar.
Quando a porta reabriu, quis ela, inicialmente, vingar-se, puni-lo ou tão somente xingá-lo. Assim que o perdeu de vista, no entanto, sentiu um surpreendente desânimo. Naquele momento, teve vontade de fugir para um lugar bem distante e não conversar mais com ninguém. Sim, ela sabia que era atraente e por isso recebera já muitas cantadas picantes, mas aquele homem... Cruzes! Tinha algo particularmente sujo e degradado em suas intenções. Sentiu-se profanada em sua condição de mulher inteligente e romântica. Saiu do elevador em direção ao chuveiro. E ele, a passos rápidos, olhando o relógio, deixou o prédio e acenou para um táxi  que vinha vazio pelo outro lado da rua. O motorista fez o retorno e levou-o até a sede da Pastoral da Igreja Católica para a sua reunião de trabalho. Era o Padre Adolfo, que estivera no Residencial Parque Imperatriz para visitar um diácono amigo seu.                                                                                                                                                                                                                                                      




                     Cesar S. Farias