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quinta-feira, 26 de julho de 2012

O Rei do Pop

       





           A mídia e a opinião pública em geral, costumam serem mordazes com as celebridades do mundo pop, principalmente no que tange a vida pessoal delas. Um dos célebres exemplos, que ilustro aqui, na minha postagem da semana, esta impresso na trajetória do astro Michael Jackson, o versátil compositor, músico, coreógrafo, dançarino e cantor, falecido em junho de 2009.
          Grande parte das pessoas, até hoje, alimentam impressões negativas sobre a vida desse verdadeiro ícone do nosso século, baseadas em informações muitas vezes deturpadas sobre o seu comportamento e índole. A principal das acusações, referente á um possível desvio sexual (pedofilia), jamais foi efetivamente comprovada. À esse, somam-se outros tantos boatos que inundaram as páginas dos jornais, fazendo de Michael, em alguns instantes, um monstro horripilante e desiquilibrado.
          Não pretendo aqui, (principalmente para não chatear meus leitores) rebater uma à uma todas as acusações que pairam ainda sobre ele, nem elevá-lo a um patamar de santo. Todos nós temos nossos momentos depressivos e cometemos ações dignas de arrependimento. A grande diferença reside no fato dessas tantas celebridades serem constantemente espionadas pela indiscreta lente de certos jornalistas, tornando-se alvos fixo de comentários maldosos e muitas vezes inverídicos.        
         Por outro lado, para contrabalancear um pouco as lembranças sobre o Rei do Pop, apresento aqui um clipe que tornam evidentes o pensamento e capacidade criativa dele. "Earth Song" (Canção da Terra), um de seus últimos trabalhos, teve a sua exibição proibida nos Estados Unidos que, por coincidência ou não, é um dos maiores agressores da natureza e poluidores do planeta.
          Saudações ao Michael, á Mãe Terra e som na caixa....


                Cesar S. Farias






        


quarta-feira, 18 de julho de 2012

Um conto de São Gabriel



        Se ela tivesse desconfiado antes daquelas tais reuniões nas noites de quarta-feira...

Em parte, era por questões de status e aceitação social que ela tolerava, sem qualquer indagação, o crescente interesse do marido pelos preceitos maçônicos. Aquele sonho, no entanto, deixou-a intrigada, despertando-lhe dúvidas que não soube de imediato expressar em palavras.
Beatriz orgulhava-se do marido e considerava-se uma fêmea de sorte, pois deixara Jacutinga pra trás, há cerca de cinco anos, para casar-se com um  juiz de direito e estabelecer-se em São Gabriel, cidade de nomenclatura angelical. Lugar com um nome desses, matutou ela certa vez, só pode trazer felicidade. Parecia uma convicção simplória, contudo não houve quem a dissuadisse de apoiar-se nela. Muito pelo contrário, amigos e familiares encorajaram-na ainda mais a acreditar em conto de fadas. Seus pais desejavam, acima de qualquer preocupação, vê-la bem casada e sua educação fora toda ela voltada para esse objetivo.            
Álvaro desempenhara em Jacutinga, por dois anos, a função de promotor público, tempo suficiente para engravidar, desposar a moça e ser aprovado num concurso público para juiz em São Gabriel. Transferiram-se para lá, adquirindo uma sólida posição social e invejável estabilidade econômica, tudo o que uma mulher como ela almejara um dia.
Havia, porém, aquele sonho... A sua intuição feminina reclamava uma atitude, um esforço que pelo menos dissipasse aquelas dúvidas semeadas nas profundezas de seu subconsciente. Naquela quarta-feira, dia de reunião, como de costume, às dezenove horas, ele beijou-a enquanto apalpava com delicadeza as suas nádegas.

- Tchau paixão!
- Tchau amor!

O carro já estava estacionado em frente à casa.  Ele virou a chave de ignição uma vez e, apesar do frio intenso, o motor da pick-up respondeu. Com a mão esquerda, tirou um charuto e o celular do bolso de seu sobretudo marrom, enquanto a destra engatava a primeira marcha. Desapareceu então do campo de visão de Beatriz, que fresteara todos os seus movimentos da janela.
Havia certo ponto de táxi a um quarteirão dali, e ela correu ao telefone, decidida a seguir o seu homem. Menos de três minutos após, já estava sentada no banco traseiro do Santana prefixo 382, dando instruções para o motorista seguir à distância a pick-up que dobrava em direção à BR.
Na altura do Km 11, o magistrado pegou uma estrada de chão batido e, rodando uns 200 metros, brecou em frente a uma mansão, onde acabavam de chegar, em um Apolo Classic preto, os legisladores federais Horácio Lopes e Ruan de Britto. Os carros trocaram buzinadas e eles um demorado sorriso cúmplice e sem palavras. Um criado abriu o pesado portão de ferro e entraram os três, dois artífices da lei mais aquele que julga.
Lá dentro, numa ampla sala toda envolta em penumbra, algumas adolescentes em trajes de mulheres proporcionavam volúpia visual a alguns coroas perfumados de loção pós-barba e muito bem polidos. Tinham elas corpos anatomicamente saudáveis, mas todas as dez, sem exceção, eram meninas.
Cinco minutos após, a esposa desconfiada, que dispensara o táxi na BR, aproximou-se da opulenta residência com cautela, em meio à escuridão e à fina garoa daquele início de noite. Observou a entrada de um último retardatário no casarão. Era o pediatra de Tiffany, sua filhinha, o Dr. Edgar. A mulher, vendo-o, deu um longo suspiro e levou a mão ao peito, sorrindo aliviada. Se o Dr. Edgar estava ali, matutou, não havia margens para desconfianças. Ele era “tão legal... adorava crianças...”
         Beatriz foi-se, decidida a apagar da memória o maldito sonho em que a estátua de Themis, personificação da justiça, de olhos vendados e semblante sombrio, pareceu-lhe tão horripilante. Era melhor deixar pra lá.


                  Cesar S. Farias

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Visita ao matadouro



Dave Gifford 
Quando sugeriram que eu visitasse um matadouro para que observasse em primeira mão as infrações aos direitos dos animais, fui muito cético. A razão de meu ceticismo foi que eu pensava que um matadouro não apresentava um exemplo de crueldade distante o suficiente de nossa vida diária para ser pungente ou relevante em uma discussão sobre direitos dos animais. Sentia que deveria escrever  algo um pouco mais esotérico ou considerado cruel ou imoral, como a matança de bebês focas. Estava terrivelmente enganado. O fato do que acontece em  um matadouro ser causado pela demanda que a vasta maioria da população exige da carne de outros seres vivos torna tudo ainda mais pungente e  relevante.
Não há fuga conveniente da culpa associada ao que  ocorre dentro de um matadouro, como no caso dos bebês focas no Ártico. Enquanto é fácil para a maioria de nós evitar comprar objetos para os quais as focas foram mortas -- assim incorrendo na culpa pelas suas mortes -- a maioria das pessoas voluntariamente (e impensadamente) come a carne de um tipo de animal ou outro cuja vida foi encerrada entre as paredes de um matadouro. 
Quando saía de meu carro no estacionamento de uma fábrica de empacotamento, a combinação de sons e odores que vinham da construção metálica me fez  questionar se aquilo era algo que eu realmente  queria conhecer. A primeira coisa que me despertou os sentidos foi o barulho do gado -- não o mugido bucólico e agradável que se pode ouvir em uma estrada rural próxima a uma fazenda, mas um mugido rápido e frenético. Era uma espécie de mugido que ouvi certa vez durante um fim de semana na fazenda leiteira de meu tio, quando uma das vacas foi atacada por cães vadios. Fora o barulho, a liberação de adrenalina no seu corpo fazia que a vaca respirasse tão rapidamente que chegava a ter dificuldade. Naquele momento no estacionamento, podia sentir o desconforto no som das vacas, mas depois descobri que cada uma que aguardava no corredor que levava ao "estábulo da matança" estava sofrendo dos mesmos sintomas de terror que testemunhei na fazenda de meu tio.
A segunda coisa que notei também foi um som. Enquanto andava na direção do prédio, ouvia um chiado estranho que somente poderia ser de uma serra cortando ossos ainda envoltos em carne. Neste ponto descobri que não estava preparado para o que iria experimentar. Este sentimento foi se intensificando ao ponto de náuseas quando, enquanto me aproximava, senti pela primeira vez a combinação de odores que permaneceria durante as próximas horas: o cheiro enjoado e nojento de carne recém-abatida ainda tão quente da vida tão recentemente removida que o calor emanava dela; o cheiro não enjoado mas nauseante da fervura de lingüiças e salsichas e o frio ranger da carne sendo pendurada, carcaça após carcaça, fileira após fileira, na área de refrigeração. Minha imaginação havia me preparado para a experiência visual, mas eu estava completamente despreparado para o cheiro quase insuportável que permeava inteiramente a fábrica. 
Depois de breves "amabilidades" com Jerry, o gerente de produção da fábrica, foi-me permitido prosseguir pela fábrica sem guias e no meu próprio passo.  Comecei a visita "onde tudo começa", como Jerry colocou, na "área de matança". 
Entrei na área de matança através de um corredor curto, parecido com um túnel, através do qual eu podia ver o que logo saberia ser a terceira estação de açougue. A área de matança consistia de uma sala na qual um número de operações era executada por um ou dois entre seis açougueiros em quatro estações ao longo da extensão da sala. Na área de matança havia também um inspetor do departamento de agricultura americano (USDA) que examinava as partes de cada animal que passava.              
A primeira estação é a estação de abate. Nela trabalha um único homem cujo trabalho é guiar o animal até o estábulo de abate, matá-lo e começar o processo de açougue. Este estágio do processo leva cerca de dez minutos para cada animal e começa com a abertura de uma pesada porta de aço que separa o estábulo de abate da área de espera.              
O homem que trabalha nesta estação deve entrar em um corredor adjacente ao pátio de espera e conduzir sua próxima vítima na área de matança com uma vara elétrica de alta-tensão. Esta é parte que demora mais tempo da operação pois o gado tem  plena consciência do que os espera à frente e está determinado a não entrar na área de matança. Os sintomas físicos de terror são dolorosamente  evidentes nas faces de cada animal que vi, tanto na área de matança quanto na área de espera.     
Durante cerca de 40 segundos a um minuto que cada animal fica esperando na área de matança antes de perder a consciência, o terror se torna visivelmente mais intenso. O animal podia cheirar o sangue e ver seus companheiros em vários estágios de desmembramento. Durante os poucos últimos segundos de vida, o animal desaba na área restrita do estábulo. Todas as quatro vacas cuja morte eu presenciei pulavam freneticamente, futilmente e pateticamente para o alto -- a única direção que não estava bloqueada por uma porta de aço. A morte vem sob a forma de uma vara pneumática que é colocada contra a cabeça e disparada.              
A pistola é projetada de modo que a haste jamais sai completamente, ela simplesmente vara a cabeça do animal e depois é puxada pelo açougueiro               enquanto o animal desmaia. Vi isso sendo usado três ou quatro vezes, fazia o seu trabalho de primeira, mas uma vaca se debateu bastante até desmaiar. Depois que o animal desmaia, a lateral  do estábulo de abate é levantada e uma corrente é colocada na pata direita. A vaca é então içada por  essa perna e fica pendurada.
Neste ponto, o açougueiro drena o sangue do corpo fazendo um corte no pescoço da vaca. Quando as artérias são cortadas há uma corrente impressionante de sangue de modo que o açougueiro não consegue se afastar rapidamente e não consegue evitar levar um banho. Esta corrente de sangue quente dura cerca de 15 segundos, após a qual a única tarefa deixada pelo homem na primeira estação é esfolar o couro e remover a cabeça do animal.              
Na segunda estação na área de matança, o animal sem cabeça é jogado no chão. O corpo é cortado na traseira, estripado e, se for fêmea, o saco de leite e as tetas são removidas. Neste momento, toda a urina e as fezes que não foram drenadas do corpo durante os primeiros segundos de morte correm soltos pelo chão. O corpo é então cortado até o meio e a pele afastada parcialmente. Uma corda é amarrada nas pernas traseiras, o corpo é levantado e o resto é puxado através de roldanas presas no chão, removendo a pele por inteira. O corpo do animal entra então na terceira estação da área de matança para ser retalhado e cortado na metade - tornando-se duas "metades de bife".              
As metades de bife são lavadas e pesadas na quarta e última estação de matança.  Elas são colocadas então num armário de refrigeração onde o calor restante da vida  lentamente se esvai antes de prosseguir para o freezer de super congelamento. Do armário de refrigeração, a carne prossegue para a área de armazenamento principal onde fica por até uma semana. Este armário tem uma saída para a área de açougue onde as laterais de carne são reduzidas em partes para serem enviadas aos supermercados e, posteriormente, chegarem até as mesas de refeição.              
A parada final em meu 'tour' foi a fábrica de salsichas e lingüiças. Sempre dizem que se alguém pudesse ver o que tem dentro de uma salsicha jamais comeria uma novamente. Bem, esse ditado se aplica dez vezes mais à produção de lingüiça. O cheiro mais violentamente nauseante que jamais senti foi o que vinha dos tanques de fervura da carne para lingüiça.              
Quando saía do complexo, estava envergonhado quanto ao meu ceticismo anterior e encorajo a qualquer um que tenha dúvidas como as que eu tinha, que faça uma visita a um matadouro ou passe um dia em uma fazenda fábrica. Creio que tenha ficado claro que deve existir uma forma melhor de nos alimentarmos e que é nossa missão, como seres capazes moralmente, perseguir formas alternativas.   
Sobre o autor: 
Dave Gifford é um estudante do Trinity College em Hartford, Connecticut, EUA. Este texto foi extraído do "The Forum" o jornal  estudantil da instituição. 
                  Tradução do texto online em 
                  http://arrs.envirolink.org/ 





terça-feira, 3 de julho de 2012

Preta, pobre e feia



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MOÇAS e Rapazes de 16 a  25
anos, p/panfletagem. Tratar: Av.
Cairu 1084/308. POA dia 19/03.
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  - Bah... Essa tá fudida... Preta, pobre e feia... 

Uma gargalhada estrondosa e homérica escapou por entre os lábios apertados de Silvânia, que, diga-se a verdade, até tentou ser discreta diante daquele comentário. Nilson, o gerente, era um debochado, todos funcionários da Cairu Empréstimos Ltda. o sabiam. Contudo, durante aquela seleção de candidatos fez-se evidente a sua verdadeira índole. 
Diante de ambos, apresentava-se o antepenúltimo candidato que conseguira retirar a senha para a entrevista. O Citzen na parede marcava já doze horas e dez minutos. A empresa, apenas mais uma no ramo da agiotagem, buscava dois novos profissionais para contratação imediata, visto a recente inauguração da primeira filial, situada no limite norte do próprio bairro.
O serviço de panfletagem seria, na verdade, apenas um estágio de duas semanas e seis dias, que conduziria os selecionados ao Quadro Efetivo de Funcionários da Cairu.                                            
Nilson era o único filho do ex-deputado Ornella Hutzler, um viúvo alegre que acumulou, com alguns méritos, em sete mandatos consecutivos, um patrimônio que permitiu a ele e aos seus uma tranquila condição financeira, bem como algumas excentricidades.
A falecida Sra. Iria Hutzler fora a católica mais convicta da família e tentara consagrar o coração do filho a São Lázaro, presenteando-o com uma medalhinha de ouro, relíquia do santo. Misteriosamente, o adorno acabou causando-lhe alergias no pescoço, semelhantes a marcas de açoite. O flagelo foi encarado por ela como um sinistro presságio do destino que aguardava o seu rebento na vida além-túmulo. Contudo, depois de frustradas tentativas, a velha desistiu de querer incutir-lhe o Evangelho. Decepcionada, guardou a correntinha de metal precioso no baú de relíquias, mantido até os dias de hoje no cofre do deputado, atrás do quadro de Portinari, no quarto do casal.                         
A mocinha afrodescendente, com certeza, não ouviu a sentença em tom de murmúrio proferida a seu respeito. Porém foi-lhe impossível ignorar o riso daquela rapariga no momento em que cruzou, cheia de esperanças, o umbral da sala 308. Na peça não havia qualquer mobília, exceto as três cadeiras pretas acolchoadas e com braços. A primeira vazia, plantada em frente à janela na parede dos fundos e envolta pela escassa claridade daquele dia cinza. As outras duas, logo em frente, na penumbra, ocupadas por Silvânia e seu chefe. Enquanto ela, a cada novo candidato, rabiscava anotações em uma folha presa à sua prancheta de madeira, ele limitava-se a formular breves perguntas informais e esquadrinhá-los com o olhar.
A jovem sentou-se e preencheu a Ficha, já bastante desanimada pela recepção que tivera. Suas roupas eram um pouco desbotadas pelo tempo e o tênis descolara na parte de trás durante os quilômetros de percurso a pé que fizera desde o Terminal de Ônibus do Mercado Público.
Faltava-lhe apenas um ano para concluir o Ensino Médio. O pai, desempregado, andava pressionando-a demais:
  
 - Vai à luta, tchê... A minhas irmã com a tua idádi já trabalhavam... Só istudá não dá... Tu não é filha di rico.
                         
***
- Qualquer coisa a genti liga pra êssi teu telefoni di contato, tá? Por enquanto tâmo só fazendo cadastro...
- Tá, então tá bom. 


                

                Cesar S. Farias